“…Quel folletto è Gianni Schicchi, “…Aquele maluco è Gianni Schicchi
E va rabioso altrui così conciando.
Falsificando sè in altrui forma
Per guadagnar la donna della torma, Para receber a posse da égua,
Falsificare in sè Buoso Donati, Disfarçou-se como Buoso Donati,
Testando e dando al testamento norma. Fazendo testamento e observando as normas legais.
La Divina Commedia – Inferno – Canto XXX
Dante Alighieri
Alguns anos depois de 1300, enquanto escrevia sua Divina Comédia, Dante Alighieri jogou-o lá na última vala do Oitavo Círculo do Inferno, local reservado para os falsificadores. Seiscentos anos depois, Puccini foi buscá-lo, libertou-o e transformou-o no esfuziante protagonista de sua única comédia, batizada com seu nome, Gianni Schicchi.
Há duas versões históricas dos fatos que acabaram por conduzir Schicchi ao Inferno. A primeira delas é que, tendo morrido Buoso Donati, um rico patrício florentino, seu primo Simone, muito preocupado porque o falecido havia deixado muito mais para a Igreja do que para os parentes, escondeu o acontecido e contratou o finório Schicchi para substituir o morto na cama e ditar novo testamento. Em reconhecimento, Simone Donati, que muitos dizem ter sido não primo mas filho do falecido, teria dado ao impostor a melhor égua do estábulo que herdara. A segunda versão – adotada integralmente na ópera de Puccini – é que, uma vez tendo escondido o cadáver, Schicchi entrou no leito, fingiu-se de moribundo, mandou chamar o testamenteiro e legou a maior parte dos bens de Buoso Donati para si mesmo, incluindo a égua, que alguns afirmam que era, na verdade, uma mula. Simone nada pode reclamar, uma vez que era cúmplice do crime – gravíssimo – de falsificação. Gianni Schicchi não conseguiu escapar, entretanto, da ira literária de Dante, cuja esposa Gemma pertencia à família Donati, e acabou tristemente imortalizado.
A comédia Gianni Schicchi de Puccini pertence ao Trittico, um conjunto de três óperas em um ato concebidas pelo autor para serem apresentadas em seqüência. Schicchi é precedida pela tragédia Il Tabarro (O Capote) e pelo drama Suor Angelica. A não ser pela presença da morte – tratada de maneira muito diferente em cada uma das três óperas –, não existe em seus argumentos nenhum ponto em comum que estabeleça uma ligação entre elas. As três peças permanecem independentes, o que permite que elas sejam encenadas em separado.
A estréia absoluta do Trittico aconteceu na noite de 14 de dezembro de 1918, em récita de gala no Metropolitan Opera de Nova York. No papel de Schicchi, cantou o legendário barítono italiano Giuseppe de Luca, cuja voz é muito conhecida pelos amantes de ópera em função da grande discografia que registrou. Esta foi a única estréia mundial de uma composição de Puccini à qual o autor não esteve presente. A Primeira Guerra Mundial terminara há apenas um mês, e as viagens transatlânticas, além de ainda escassas, eram perigosas por causa das minas espalhadas pelo oceano. Puccini teve de se contentar com as notícias pelos jornais, e, é claro, com o polpudo cheque enviado pelos americanos. As duas primeiras óperas não agradaram muito. Foram acolhidas pela crítica nova-iorquina com mais respeito do que admiração. Gianni Schicchi, entretanto, foi recebida com entusiasmo. O New York Tribune escreveu que “essa comédia é rumorosamente divertida, a música é tão cheia de vida, de humor e de expedientes engenhosos que, embora exista menos canto do que nas óperas precedentes, ela foi recebida com ruidoso deleite”.
A idéia de compor um espetáculo lírico em três partes havia ocorrido a Puccini dezoito anos antes, em 1900, logo após completar a Tosca. Naquela ocasião, Puccini flertou com a idéia, depois abandonada, de escolher três temas retirados da Divina Comédia. Ele retornou à idéia depois de escrever Madama Butterfly, em 1904, quando andou sonhando em compor uma trilogia baseada em contos do autor russo Maxim Gorki. Mas este foi outro projeto que não vingou. O Trittico, tal como o conhecemos, começou a tomar forma em 1913, num momento em que Puccini não conseguia encontrar um argumento que o satisfizesse para uma ópera de duração normal. Óperas em um ato, mais fáceis de fazer, pareciam ser a solução momentânea. Dos três textos escolhidos nessa ocasião, apenas La Houppelande de Didier Gold permaneceu, transformando-se em Il Tabarro, violenta narrativa de um crime passional entre barqueiros do rio Sena. Puccini completou-a em 1916, antes de escolher os temas das outras duas óperas, sobre os quais não conseguia se decidir. Examinava dúzias de argumentos e não gostava de nenhum.
Nesse momento entra em cena, como salvador da Pátria, o jovem libretista e dramaturgo Giovacchino Forzano, que recém começava a colaborar com Puccini. Forzano levou ao desconsolado compositor um libreto construído a partir de uma peça de teatro que ele mesmo escrevera, Suor Angelica. Puccini, entusiasmado por criar um drama lírico apenas para vozes femininas ambientado num convento, aceitou-o imediatamente e começou a compor. Nesse meio tempo, o brilhante Forzano, a partir de alguns versos do Canto XXX do Inferno de Dante – que citamos acima – fez uma pesquisa histórica e produziu um esboço do Gianni Schicchi para Puccini, que adorou a idéia. No verão de 1917, quando o libreto ficou pronto, Puccini interrompeu a composição da “ópera das freiras” e mergulhou de cabeça na comédia. Forzano recebeu a confirmação em uma quadrinha divertida que dizia:
“Dopo Il Tabarro di tinta nera
Sento la voglia di buffegiare.
Lei non si picchi
Se faccio prima quel Gianni Schicchi”
(Depois do Tabarro de negras tintas / sinto vontade de fazer comédia / Não se importune / Se faço antes este Gianni Schicchi).
Após iniciar a partitura da comédia, entretanto, Puccini voltou a Suor Angelica, terminando-a em setembro de 1917. Gianni Schicchi ficou pronta em abril de 1918.
Gianni Schicchi é a prova viva da profunda capacidade de Puccini como músico. Apesar de ter forjado seu estilo, ao longo dos anos, nas óperas trágicas que o fizeram famoso, o compositor não encontra a mínima dificuldade em adaptar este estilo à comédia, embora seja esta a primeira vez que…